quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Conservação de forragem de Alfafa


Em poucos sistemas de produção animal que têm por base a utilização de pastagens, observa-se regularidade na oferta e na qualidade da forragem ao longo do ano. Desta forma, a adoção de práticas eficientes de produção e conservação de forragem de elevado valor nutritivo, tais como a ensilagem e a fenação, permite explorar de modo mais eficiente o potencial produtivo das plantas forrageiras. Além disso, a conservação de forragem é uma técnica bastante conhecida e utilizada para suprir a redução do valor nutricional e das ofertas de forragens durante o período seco do ano, quando a qualidade e a quantidade de forragem disponível das pastagens são limitantes, devido a fatores climáticos.
Cada sistema de conservação de forragem oferece vantagens e desvantagens em relação ao outro. A produção de silagem permite intensa mecanização na confecção e no fornecimento aos animais, e pode poupar trabalho manual. Além disso, a forragem picada é facilmente utilizada em rações em mistura completa. Porém, a ensilagem requer mais energia para a colheita, para o manuseio e para o fornecimento aos animais e grande investimento em máquinas e em estrutura de armazenamento (CÂNDIDO et al., 2008). A ensilagem e a fenação não devem ser comparadas em termos de eficiência e tampouco na qualidade do produto, pois são processos de conservação que produzem forragem com características nutricionais distintas e em muitas circunstâncias feno e silagem podem ser usados na dieta de maneira complementar.
A alfafa, devido ao seu potencial de produção, à alta qualidade e à adaptação a diversas condições ambientais, tem sido cultivada em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. A alfafa é utilizada tanto no pastejo, como nas formas de feno e de silagem, mas a fenação é a principal forma de uso no Brasil e em países como os Estados Unidos (PEREIRA et al., 2005).

Corte da forragem para conservação

Com o crescimento, ocorrem alterações na planta, que resultam em elevação dos teores de compostos estruturais, tais como a celulose, a hemicelulose e a lignina, e, paralelamente, na diminuição do conteúdo celular. Além destas alterações, é importante salientar que a diminuição na relação folha:caule resulta em modificações na estrutura das plantas. Desta forma, é de se esperar que plantas mais velhas apresentem menor conteúdo de nutrientes potencialmente digestíveis (que serão absorvidos mais facilmente durante o processo de digestão).
De acordo com Martins e Vilela (2008), recomenda-se, após o plantio, efetuar o primeiro corte da alfafa no período de floração plena. Os cortes subsequentes devem ser feitos quando houver entre 5% e 10% de floração ou quando a brotação basal atingir altura média de 3 cm a 5 cm, em períodos do ano em que não ocorre o florescimento. Segundo esses autores, a altura de corte deverá ser de 8 cm a 10 cm do solo, e o corte deve ser feito pela manhã, após a evaporação do excesso de orvalho (Figura 1).
Foto: Lucas Castilho Flores
Figura 1. Corte da alfafa.

Produção de feno

O princípio básico da fenação resume-se na conservação do valor nutritivo da forragem por meio da rápida desidratação, para que a atividade respiratória das plantas, bem como a dos microrganismos, seja paralisada. Assim, a qualidade do feno está associada a fatores relacionados com as plantas que serão fenadas, às condições climáticas ocorrentes durante a secagem e ao sistema de armazenamento empregado. As operações envolvidas no processo de fenação incluem, além das práticas comuns a áreas destinadas ao cultivo de alfafa (como implantação da cultura e aplicação de fertilizante), práticas específicas do processo que são: corte, revolvimento da forragem, enleiramento, enfardamento, recolhimento e armazenamento dos fardos.
Para a produção de feno de alto valor nutritivo, alguns fatores básicos devem ser observados: as condições climáticas apropriadas para a secagem no período de corte; a colheita da forragem no estádio de desenvolvimento no qual o valor nutritivo é máximo; o corte de uma quantidade de forragem que possa ser manuseada com base nos equipamentos e na mão de obra disponíveis; o controle de plantas invasoras; o uso de equipamentos apropriados para o corte e o manuseio da forragem no campo; o enfardamento do feno quando o teor de água do material atingir 18% e o armazenamento em local apropriado.

Processo de desidratação da forragem

Segundo ROTZ (1995), a forragem ao ser cortada para fenação contém de 70% a 80% de umidade, isto é 2,3 a 5,6 partes de água para cada parte de MS. Quando a forragem é cortada e espalhada no campo para secar, há uma súbita interrupção da transpiração (HARRIS e TULLBERG, 1980). A supressão do suprimento de água pelas raízes e uma evaporação contínua da superfície foliar levam ao pré-murchamento, secagem e morte das células. Durante a secagem, alguma atividade enzimática prossegue e nutrientes podem ser perdidos. Assim, quanto mais rapidamente ocorrer a secagem e, consequentemente, a morte das células, menor será a perda de valor nutritivo.
Durante o processo de secagem, quando a forragem é enleirada, a progressiva perda de água e o sombreamento promovem o fechamento dos estômatos, o que resulta em aumento na resistência à desidratação. Embora os estômatos se fechem em, aproximadamente, uma hora após o corte, quando as plantas possuem de 65% a 70% de água, de 20% a 30% dessa água é perdida nesta primeira fase da secagem (MacDONALD e CLARK, 1987).
Após o fechamento dos estômatos, de 70% a 80% da água deverá ser perdida pela cutícula, cuja função é de prevenir a perda de compostos da planta por lixiviação e de prover proteção contra a abrasão e os efeitos da geada e da radiação. Na fase final de secagem, a membrana celular perde a sua permeabilidade seletiva e então ocorre rápida perda de água. Essa fase se inicia quando o teor de água da planta atinge em torno de 45% e é menos influenciada pelo manejo e mais sensível às condições climáticas do que as anteriores, principalmente à umidade relativa do ar.
Alguns fatores como condições climáticas, estrutura da planta, maquinário utilizado no corte e manuseio da forragem, uso de condicionadores químicos e tipo de secagem devem ser considerados, pois interferem na desidratação das plantas. As principais variáveis a serem consideradas em relação ao clima são radiação solar, temperatura, umidade do ar e velocidade do vento.
Os fatores relativos à planta que afetam a taxa de secagem, segundo Rotz (1995), são o conteúdo inicial de água da planta e as características físicas da forragem. A espessura da cutícula, o diâmetro e o comprimento do colmo e a relação folha:colmo, entre outros, podem influenciar a velocidade de secagem da alfafa.
Inúmeras características relacionadas à estrutura das plantas influenciam a taxa de perda de água. Em relação à proporção de caule, é importante considerar que a transferência de água desta fração para as folhas é um fator importante relacionado à velocidade de secagem. A aplicação de tratamentos mecânicos nos caules como o condicionamento resulta em alta taxa de secagem e é vantajosa mesmo se a perda de água do caule pelas folhas for reduzida (ROTZ, 1995; ROTZ, 2001). É fato reconhecido que folhas de alfafa secam mais rapidamente do que os caules mais espessos e essa secagem mais rápida das folhas contribui para a destruição e a perda mecânica dos tecidos foliares mais nutritivos (HARRIS e TULLBERG, 1980).
Outro ponto importante a ser considerado é o maquinário utilizado no corte e no manuseio da forragem. Por muitos anos, as segadeiras de barra têm sido utilizadas no corte, principalmente por serem máquinas simples e baratas. A desvantagem desse equipamento é a baixa velocidade de operação, além de promover dilaceração dos caules, o que prejudica a rebrota das plantas e reduz a persistência do estande (ROTZ, 2001). As segadeiras de disco giratório desenvolvem mais velocidade do que as de barra, mas o seu desempenho é limitado pela habilidade do operador e a desvantagem desta máquina é o seu alto custo de operação, pois requer quatro vezes mais potência para operação.
A utilização de segadeiras condicionadoras que promovem o esmagamento dos caules acelera a taxa de secagem, pois elas aumentam a perda de água desta fração e reduzem pela metade o tempo de secagem de plantas forrageiras (RAYMOND et al., 1991; ROTZ, 1995). Roçadeiras não devem ser utilizadas no processo, pois além de dilacerarem os caules, picam a forragem, o que dificulta o recolhimento e resulta em substancial perda de matéria seca.
A altura de corte influencia a porção dos caules remanescentes e determina a circulação de ar na base da leira. As leiras produzidas pela maioria das segadeiras são compactas e altas, considerando-se que a resistência da leira na fase inicial de secagem é o principal fator que limita a perda de água, a taxa de desidratação pode ser aumentada com o uso de ancinhos. Assim, a perda de água na segunda fase de secagem pode ainda ser rápida se a compactação da leira for diminuída com viragens e revolvimento com ancinhos (ROTZ, 2001).
No processo de secagem da alfafa no campo, o topo da leira se desidrata antes da base. Desta forma, a manipulação da leira pode acelerar e uniformizar a secagem, por meio do revolvimento da forragem mais úmida e também do espalhamento, que aumentará a superfície de contato com o ambiente (ROTZ, 2001). O uso de ancinhos para promover a inversão das leiras não se aplica em leguminosas. Contudo, ele é benéfico após chuvas ou quando as condições de secagem são inadequadas (ROTZ, 1995).
Ainda em relação à secagem, têm sido utilizados condicionadores químicos, que mantêm os estômatos abertos e aceleram a taxa de secagem das plantas. De acordo com MacDonald e Clark (1987), a adição de fusicocina, de quinetina e de azida sódica retardou o processo de fechamento dos estômatos e acelerou a taxa de secagem. A aplicação de produtos químicos, com a finalidade de alterar a estrutura da epiderme, tais como o carbonato de potássio ou de sódio e os herbicidas dessecantes dinoseb, endotal e diquat, pode resultar em maior taxa de secagem de plantas forrageiras, uma vez que ela promove redução na resistência cuticular e perda de água (MEREDITH e WARBOYS, 1993).
O tipo de secagem, artificial ou à sombra, também deve ser considerado. A secagem artificial propicia a obtenção de feno de qualidade superior, com poucas perdas. Ela pode ser feita mediante ventilação forçada ou com ar quente em secadores especiais (CÂNDIDO et al., 2008). Martins e Vilela (2008) afirmam que o uso de galpões para completar a secagem da forragem emurchecida diminui os riscos de perdas e resulta em feno de melhor qualidade e o uso de estrados e/ou de cavaletes, sobre os quais a alfafa é depositada, é indicado para facilitar a circulação do ar. Para prevenir o aquecimento e o crescimento de mofos, deve-se efetuar o revolvimento da forragem periodicamente. O uso de secadores tipo barcaça, com ventilação forçada de ar, à temperatura ambiente ou aquecido, é uma alternativa para regiões ou para períodos do ano em que chuvas intensas e prolongadas dificultam ou impedem a secagem à campo (MARTINS e VILELA, 2008).

Perdas durante o processo de secagem

As perdas de nutrientes se iniciam imediatamente após o corte e algumas alterações bioquímicas são inevitáveis durante a secagem. Desta forma, a remoção de água tão rapidamente quanto possível resultará na diminuição das perdas (REES, 1982; MUCK e SHINNERS, 2001). Vários tipos de perdas podem ocorrer no recolhimento da forragem, além daquelas consideradas inevitáveis, tais como aquelas decorrentes da respiração celular, da fermentação, da lixiviação de nutrientes, da decomposição de compostos nitrogenados e da oxidação de vitaminas.
As enzimas hidrolíticas e as enzimas respiratórias presentes nas células das plantas continuam ativas até que haja redução acentuada no conteúdo de água das células que, de acordo com Rees (1982) e MacDonald e Clark (1987), é de 35% a 40%. Se a planta permanecer respirando, ocorrerá perda de carboidratos solúveis, diminuindo a qualidade do feno. Outros compostos, como gorduras e proteínas, podem ser usados no processo de respiração, quando se esgotam os carboidratos solúveis.
As perdas devidas à ocorrência de chuvas durante a secagem no campo podem chegar a mais de 30% da MS. Os principais fatores que afetam as perdas por lixiviação estão relacionados com a quantidade, a intensidade e a duração das chuvas. Fatores inerentes à cultura tais como o conteúdo de água da planta no momento da chuva, a maturidade, a relação folha:caule, a densidade da camada de forragem, a espécie forrageira e o tratamento da planta no momento do corte, influenciam acentuadamente as perdas de MS (MacDONALD e CLARK, 1987; MOSER, 1995; MUCK e SHINNERS, 2001).
Durante a secagem, e em decorrência da atividade respiratória, as concentrações de proteína bruta, de fibra em detergente neutro, de fibra em detergente ácido e de lignina, podem aumentar em termos proporcionais, uma vez que os resultados são expressos em percentagem. Além disso, podem ocorrer pequenas perdas de compostos nitrogenados. Assim, o desdobramento da proteína na presença de umidade é muito rápido e a extensão da degradação é influenciada pelo tempo de secagem (MOSER, 1995). As perdas de compostos nitrogenados são menores do que as de carboidratos solúveis.
A secagem ao sol diminui os teores das vitaminas A, C e E, em função da oxidação e da queima (MOSER, 1995). As perdas de minerais, como fósforo e cálcio, em geral são pequenas; entretanto, a exposição prolongada no campo pode intensificá-las e com a ocorrência de lixiviação, a quebra de folhas e outros processos físicos indiretos, esta perda pode aumentar.
Outras mudanças também ocorrem na forragem após a secagem, natural ou artificial, destacando-se a diminuição do conteúdo de proteína solúvel da alfafa, que é o agente causador do timpanismo em animais em pastejo nesta espécie de leguminosa (MOSER, 1980; MOSER, 1995).

Armazenamento

As principais causas de perdas de matéria seca no armazenamento de feno com alto teor de água estão relacionadas com a continuação da respiração celular e o desenvolvimento de bactérias, de fungos e de leveduras. Em razão da respiração celular e do crescimento de microrganismos, há utilização de carboidratos solúveis, de compostos nitrogenados, de vitaminas e de minerais, resultando na diminuição do valor nutritivo do feno. Condições de alta umidade e de temperatura acima de 55 ºC no feno são favoráveis à ocorrência de reações não enzimáticas entre os carboidratos solúveis e o grupo amina dos aminoácidos, resultando em compostos denominados produtos da reação de Maillard (MOSER, 1980; MOSER, 1995).
De acordo com MOSER (1995), a análise de fenos armazenados com umidade acima de 15% e que sofreram aquecimento evidencia algumas mudanças na cor, associadas com a atividade de microrganismos e aquecimento durante o armazenamento. A cor verde, presente no enfardamento dos fenos úmidos, é alterada para vários tons de marrom. A extensão das alterações na cor fornece indicação da intensidade do aquecimento no armazenamento e ocorrência da reação de Maillard.
As plantas forrageiras em crescimento no campo estão inoculadas, naturalmente, com ampla variedade de fungos e de bactérias. É importante considerar, que além das alterações na composição química, o desenvolvimento de fungos pode ser prejudicial à saúde dos animais e das pessoas que manuseiam estes fenos, devido à produção de toxinas, principalmente aquelas relacionadas aos fungos patogênicos como Aspergillus glaucus e Aspergillus fumigatus (MOSER, 1995; REIS e RODRIGUES, 1998).
Devido às perdas e ao aumento na população de microrganismos que podem ocorrer durante o armazenamento do feno, é necessário tomar algumas precauções. Segundo Costa e Resende (2006), o feno deve ser armazenado em galpões arejados, protegidos da umidade e os fardos devem ser dispostos em pilhas sobre estrados de madeira, evitando-se o contato com o piso (Figura 2).
 

Figura 2. Exemplo de armazenamento de feno de alfafa.
Fonte: Faes-PaalGroup

É imprescindível observar cuidados em relação à ocorrência de fogo nos galpões. As causas de fogo nesses locais podem ser por combustão espontânea ou de origem externa. Como medida de segurança, os fardos redondos não devem ser armazenados com teor de água superior a 18%, enquanto os retangulares podem ter 20% ao serem colocados em galpões. Quando se suspeita que a concentração de água está acima dos valores citados, o feno deve ser armazenado em local arejado e seco por pelo menos três semanas, a fim de perder água. Os fenos que foram recolhidos recentemente não devem ser armazenados com os mais secos.
Deve-se avaliar periodicamente a temperatura dos fardos, com base nos seguintes critérios: valores abaixo de 49 oC são considerados normais, entre 49 ºC e 60 oC inicia a fase de alerta e acima de 70 oC existe sério risco de combustão espontânea.

Aditivos

Grande variedade de produtos químicos pode ser aplicada em fenos armazenados com alto teor de água, para controlar o crescimento de microrganismos, destacando-se a utilização de diacetato de sódio, ácido propiônico, propionato de amônio, uréia e amônia anidra (COLLINS, 1995). Os produtos químicos podem agir na diminuição da disponibilidade de água e de oxigênio, na alteração do pH do feno ou na destruição de microrganismos ou na inibição do seu crescimento.
O ácido propiônico e outros ácidos orgânicos, quando aplicados em quantidades apropriadas, controlam o crescimento de fungos (como Aspergillus fumigatus), de actinomicetos (como Micopolyspora faeni) e de Thermoamicetos vulgaris, agente causador da febre do feno (COLLINS, 1995). Segundo esse autor, produtos químicos à base de ácido propiônico foram eficientes em prevenir o aquecimento e em preservar a qualidade de feno de alfafa e de feno de capim coastcross armazenados com alta concentração de água.
Segundo Lacey et al. (1981), os aditivos utilizados para conservação do valor nutritivo de fenos com alto teor de água devem apresentar características como: ser de baixa toxicidade para mamíferos; possuir efeito sobre fungos, actinomicetos e bactérias; possibilitar distribuição uniforme nos fardos; apresentar baixo nível de perda por volatilização; não ser excessivamente absorvido pelo feno; ser de manuseio fácil e seguro; ter amplo espectro de ação e ser solúvel em água.
Dentre as técnicas utilizadas para a conservação de fenos com alta concentração de água, destaca-se a amonização, com amônia anidra ou ureia como fontes de amônia (REIS e RODRIGUES, 1992; REIS et al., 1997). É importante salientar que bovinos que consumam feno de alta qualidade tratado com alta dose de amônia (3,0% da MS) podem apresentar hipersensibilidade; essa dose pode causar danos ao animal e levar à redução no consumo de forragem (COLLINS, 1995).
Trabalhos de pesquisa indicam que as reações entre a amônia e os açúcares presentes na forragem de alta qualidade resultam na formação de 4-metilimidazol, que é tóxico. A aplicação de amônia anidra em forragens de baixo valor nutritivo não apresenta risco de formação desse composto em razão do baixo teor de açúcares solúveis destes volumosos (ROTZ, 1995; COLLINS, 1995). Além disto, deve-se considerar que o manuseio da amônia requer cuidados especiais, pois o contato deste produto com a pele pode causar queimaduras, e a sua inalação acarreta problemas cardíacos e respiratórios (ROTZ, 1995).
Estudos têm demonstrado a viabilidade de se usar ureia como fonte de amônia para o tratamento de fenos armazenados com alto teor de água. O sistema de tratamento é fundamentado no fato de que a uréia em contato com uma fonte de urease, em ambiente úmido, é hidrolisada, produzindo duas moléculas de amônia e uma de gás carbônico (SUNDSTOL e COXWORTH, 1984). Entretanto, Freitas et al. (2002) avaliaram duas fontes de amônia (amônia anidra ou uréia) para conservação do feno de alfafa armazenado com alta concentração de água e verificaram que somente a amônia foi eficiente no controle dos fungos. Nos tratamentos com ureia, apesar de haver controle dos gêneros Aspergillus e Penicillium, os demais gêneros presentes foram suficientes para causar a deterioração dos fenos. Os autores afirmaram que as quantidades de ureia aplicadas (0,9% e 1,8% na MS) possivelmente foram insuficientes para o controle de fungos no feno.
A utilização de aditivos microbianos, tais como as bactérias homofermentativas que aumentam a produção de ácido lático, tem sido recomendada para acelerar o abaixamento do pH das silagens. Segundo Collins (1995), inoculantes bacterianos podem ser usados para conservar a qualidade de fenos armazenados com alta concentração de água. Contudo, a forma de atuação destes aditivos não tem sido claramente definida. De acordo com Rotz (1995), inoculantes com poucas cepas de Lactobacillus não têm efeito sobre desenvolvimento de fungos, alterações na cor, aquecimento, perda de matéria seca e mudanças na qualidade de fenos armazenados com alto teor de água.

Silagem

A conservação da alfafa como silagem e haylage é menos conhecida do que a conservação na forma de feno. A ensilagem é o método de conservação da forragem mediante um processo anaeróbio (sem a presença de oxigênio), com objetivo de produção de ácidos durante a fermentação que reduz o pH do meio, controlando, assim, a atividade de microrganismos. Denomina-se silagem de alto teor de água ou silagem de corte direto aquela em que a forragem é armazenada com mais de 70% de água e se aplica a denominação de haylage à silagem pré-secada, que tem no produto final de 40% a 60% de água (JUAN e ROSSI, 2007).
No processo de ensilagem, a forrageira é cortada, picada e posteriormente ensilada. Nesse processo, há sucessivas mudanças bioquímicas, que dependem de fatores externos e internos das plantas. A ação conjunta desses fatores favorece o desenvolvimento dos microrganismos durante o processo de fermentação (JUAN e ROSSI, 2007).
Quando a ensilagem é feita sob condições ideais, o processo é dividido em quatro fases. Na primeira fase, o oxigênio retido no ar que permanece no silo após a compactação da forragem é utilizado para a respiração da planta e, como consequência, na massa ensilada, ocorrem trocas gasosas. Esse fenômeno acontece quando no meio há açúcares solúveis e oxigênio (CLEALE et al., 1990; JUAN e ROSSI, 2007). O rompimento das membranas celulares da planta é chamado de segunda fase, aquela em que é liberado o conteúdo celular e em que há proliferação das bactérias contidas naturalmente na forragem. Nesse ponto, os carboidratos solúveis da planta são transformados rapidamente pelas enzimas em glicose e em frutose. Os carboidratos solúveis são imediatamente atacados enquanto houver oxigênio na massa ensilada.
A respiração provoca liberação de gás carbônico e pouco a pouco é consumido o oxigênio do silo. No processo há produção de calor e de água. Nesse momento prevalecem condições sem a presença de oxigênio na maior parte do silo. Segundo Devusyst e Van Belle (1964), citados por Juan e Rossi (2007), ao final de 5h a 6h o silo pode estar totalmente isento de oxigênio, se for fechado com rapidez. Mas se o fechamento for realizado 48h depois do enchimento, o processo respiratório continua por aproximadamente 72h.
A seguir, na fase de fermentação, os microrganismos iniciam o processo fermentativo. As bactérias que necessitam da presença de oxigênio para
sobreviver permanecem por pouco tempo no silo e, à medida que aumenta a anaerobiose, inicia-se a multiplicação das bactérias anaeróbias, representadas pelas coliformes (ou enterobactérias). Essas bactérias atuam até que o pH da silagem esteja em torno de 4,5. Em seguida, as bactérias láticas se multiplicam rapidamente, não só porque têm afinidade com o pH baixo, mas também porque impedem a proliferação de outras bactérias. Essas bactérias convertem o açúcar das plantas em ácido lático, principalmente. Além das bactérias homofermentativas (produzem apenas um produto final durante a fermentação) e das heterofermentativas (produzem mais de um produto final durante a fermentação), outras bactérias também participam desse processo fermentativo, porém com menor eficácia.
Finalmente, se a queda do pH é suficiente para limitar o crescimento bacteriano, a silagem estará na quarta fase ou fase estável, em que a atividade bioquímica é baixa ou inexistente, levando à preservação da massa e, consequentemente, dos seus nutrientes (CLEALE et al., 1990). Embora apresente elevado valor nutritivo, a alfafa possui características indesejáveis para o adequado processo de fermentação, tais como alto teor de água no momento do corte, alto poder-tampão (capacidade de resistir à variações do pH), baixos teores de carboidratos solúveis e caule  tubular e oco, o que impede a completa retirada do ar no momento da ensilagem (McALLISTER et al., 1998 citado por PEREIRA et al., 2005). Além disso, as referidas características indesejáveis são mais acentuadas quando a planta é mais jovem.
Uma forma de contornar esta situação é a forragem passar por um processo de emurchecimento ou ser ensilada com aditivos (PEREIRA et al., 2005). As perdas totais de matéria seca e de nutrientes durante o processo de ensilagem da alfafa podem variar entre valores mínimos de 3% a 6% em condições adequadas até 70% ou mais quando a forragem ensilada sofrer sérias alterações. Alguns estudos comprovaram que as perdas são mais severas em silagem do que em silagem pré-secada (JUAN e ROSSI, 2007). Por esses motivos é importante salientar a necessidade do abaixamento do pH o mais rapidamente possível, visando obter menores perdas durante a fermentação.
Para tanto, é necessário que as condições anaeróbias sejam alcançadas e com isso se retarde o crescimento e o metabolismo de microrganismos indesejados. Se houver falha nestas condições, há produção de volumoso de baixa qualidade, redução de consumo e, consequentemente, baixo desempenho animal (CLEALE et al., 1990).
Diversos procedimentos vêm sendo pesquisados visando contornar esses problemas, tal como o uso de inoculantes microbianos, os quais possuem a função de aumentar a população de bactérias láticas no silo e, consequentemente, a produção de ácido lático (CLEALE et al., 1990), de modo que haja rápido declínio no pH e decréscimo nos níveis de acetato e de butirato (ácidos indesejáveis na ensilagem). Além disso, os inoculantes auxiliam na fase de abertura do silo, na qual a silagem é exposta ao ar e inicia-se o processo de degradação, evitando perdas durante esta fase.

Emurchecimento e aditivos

Ensilar a alfafa sem emurchecimento, com teor de matéria seca (MS) menor do que 35% resultará em perda decorrente de formação de efluente no silo e em fermentações indesejáveis causadas por bactérias do gênero Clostridium. Entretanto, teor de MS acima de 60% dificulta a compactação e favorece a penetração de oxigênio (MUCK, 1990), com consequente superaquecimento da massa, o que provoca menor disponibilidade do nitrogênio.
Há de se considerar que o crescimento dos clostrídios é estimulado por elevação da temperatura no interior do silo, baixo teor de MS da forragem ensilada, baixo teor de carboidratos solúveis, alta capacidade tamponante da forragem e vedação inadequada do silo (JOBIM e GONÇALVES, 2003). Segundo Muck (1988), citado por Jobim e Gonçalves (2003), o pH no qual a atividade dos clostrídios é interrompida depende da atividade da água, relacionada ao teor de matéria seca da silagem. Portanto, é necessário pH baixo para conservar a silagem. Isso mostra que nem sempre o baixo pH em silagens com alto teor de água pode controlar o crescimento de clostrídios. Portanto, o emurchecimento é uma ferramenta que poderá ser utilizada para auxiliar o controle desses microrganismos indesejáveis.
Os aditivos biológicos (enzimas e bactérias homoláticas e heteroláticas) e o emurchecimento têm sido propostos como formas de propiciar melhores resultados no processo fermentativo de silagens. Na literatura, vários autores relatam a utilização de inoculantes microbianos. Muitos têm demonstrado efeitos positivos na qualidade de silagens, evidenciados por diminuição da proteólise inicial, redução do pH final, aumento da produção de ácido lático e diminuição do nitrogênio não-protéico solúvel (JONES et al., 1992).
Ainda assim, boas condições ambientais, substrato suficiente para as bactérias láticas, no caso da utilização de aditivos (HENDERSON, 1993), bom manejo, boa regulagem do maquinário destinado à colheita, garantia da manutenção do meio anaeróbio, tamanho certo das partículas a serem ensiladas (STOKES, 1992; HARRISON et al., 1994), boa compactação para efetiva e rápida expulsão do ar (WOOLFORD, 1990), ausência de rachaduras a fim de evitar a infiltração de ar ou de água, rápido fechamento do silo e cobertura do silo com lonas plásticas (MUCK, 1987), são mecanismos para minimizar as perdas de matéria seca, de energia e de qualidade da silagem. O manejo deve permitir a ocorrência e a manutenção do meio anaeróbio do silo, já que este é o ponto crítico da confecção de uma boa silagem (McDONALD et al., 1991).


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