sábado, 29 de julho de 2017

Pragas da Alfafa

O reconhecimento das principais pragas da cultura da alfafa pode ser realizado por meio da chave de identificação (Figura 1) e das características mais facilmente visualizáveis.



Figura 1. Chave para identificação de pragas da cultura da alfafa.
Fonte: Bueno et al. (2011).

A seguir serão mencionadas as principais pragas da cultura da alfafa (BUENO et al., 2011):
Pulgões
São as pragas de maior importância econômica na alfafa por causa da sua capacidade de reprodução e de causar danos à cultura.  Formam colônias nas folhas e caules da planta, onde convivem indivíduos de diferentes idades. Na sua maioria, são pulgões sem asas; insetos com asas aparecem quando a colônia está muito grande e outras plantas devem ser colonizadas para perpetuação da espécie.
No Brasil, são encontradas quatro espécies de pulgões que causam danos à cultura da alfafa e cada uma delas tem preferência por determinada condição climática. São elas:
a) Pulgão-manchado-da-alfafa (Therioaphis trifolii forma maculata) – Possui coloração verde e é facilmente diferenciado dos demais pulgões da alfafa por conter fileiras de manchas escuras no dorso, de onde saem pequenos pelos (Figura 2A). Ele se desenvolve bem sob condições de tempo quente e seco; os picos populacionais estão relacionados com temperaturas em torno de 25 °C, mas desde que a precipitação semanal esteja abaixo de 50 mm. Ninfas e adultos dessa espécie sugam a seiva das folhas e das hastes e são numerosos na parte mais baixa da planta e no lobo inferior das folhas.
b) Pulgão-da-ervilha ou pulgão-verde-da-alfafa (Acyrthosiphon pisum) – Esse pulgão tem coloração verde brilhante e antenas com manchas escuras no final de cada segmento (Figura 2B). Suas pernas são longas e os sifúnculos (duas estruturas pontiagudas presentes na parte posterior do corpo) são bastante afilados. Sua maior ocorrência está associada com temperaturas entre 16 ºC e 18°C, acompanhadas de escassez de chuva. Entretanto, A. pisum é tolerante a altas temperaturas, tendo sido registrados picos populacionais sob temperaturas iguais a 23 °C. As ninfas dessa espécie vivem frequentemente escondidas em folhas enroladas e por isso passam despercebidas.
c) Pulgão-azul-da-alfafa ou pulgão-verde-azulado (Acyrthosiphon kondoi) – Essa espécie possui coloração verde azulada e os indivíduos alados têm uma mancha marrom no tórax. Apresentam os três primeiros segmentos das antenas claros e os demais vão escurecendo de forma gradual até o último, que é negro e de menor tamanho (Figura 2C). As maiores populações desse pulgão estão relacionadas à ausência de chuvas e a temperaturas que variam entre 16 ºC e 22°C. A espécie A. kondoi prefere os brotos apicais, alojando-se sobre o caule e sobre as folhas. Grandes quantidades de “mela” estão associadas com as infestações desse pulgão.
d) Pulgão-das-leguminosas (Aphis craccivora) – As ninfas desse pulgão são de coloração verde-escura e os adultos são pretos brilhantes com pernas brancas. Embora essa espécie esteja relacionada com períodos de seca prolongada e altas temperaturas, já foi constatada a ocorrência de pico populacional a 18 °C. Essa espécie forma colônias muito densas nas hastes das plantas (Figura 2D). Danos: Os pulgões sugam a seiva das plantas e injetam saliva tóxica, deixando as folhas severamente amareladas, provocando deformação e enrugamento das folhas e brotos, além do encurtamento dos entrenós, nas hastes. Esses insetos liberam uma substância adocicada onde cresce um fungo preto denominado fumagina, prejudicando a fotossíntese. Desse modo, as plantas reduzem a produção de folhas e, consequentemente, a de forragem e de feno, podendo ser mortas. A maior sensibilidade da alfafa ao ataque de pulgões ocorre no início da rebrota.
Outra consequência grave do ataque de pulgões à alfafa é o fato de muitas espécies agirem como vetores de importantes viroses, que limitam a produção da planta: o mosaico-da-alfafa, e o mosaico-das-enações. Os indivíduos com asas aumentam a dispersão dos vírus (BLACKMAN e EASTOP, 1984; SOUZASILVA et al., 1998; LECLANT et al., 1973).
Fotos: Fernando Daniel Fava

Figura 2. Pulgões que causam danos às plantas de alfafa: pulgão-manchado Therioaphis trifolii forma
maculata (A), pulgão-da-ervilha Acyrthosiphon pisum (B), pulgão-azul Acyrthosiphon kondoi (C) e
pulgão-das-leguminosas Aphis craccivora (D).

Lagartas
A ocorrência de lagartas na alfafa também pode ser bastante importante, porque esses insetos consomem folhas, diminuindo a produção de massa vegetal, produto de maior interesse na planta por parte dos agricultores e pecuaristas. Várias são as espécies de lagartas presentes na cultura, embora a grande maioria ocorra principalmente em outros cultivos e somente esporadicamente na alfafa.
Lagarta-da-alfafa (Colias lesbia pyrrhothea) – É a única que tem a alfafa como planta hospedeira principal. Os adultos possuem variações de cores que vão desde o branco até o alaranjado, passando por vários tons de amarelo. Suas lagartas alimentam-se de folhas, de flores e de hastes finas da alfafa; consomem as áreas entre as nervuras das folhas, deixando as nervuras intactas. Os danos mais severos estão relacionados às plantas com menos de 15 cm de altura, onde o corte foi realizado recentemente. Machos e fêmeas se diferenciam pela coloração (Figura 3).
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 3. Fase jovem (A) e adulta – fêmea e macho (B) da lagarta-da-alfafa Colias lesbia pyrrhothea.


Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) – Quando pequenas, as lagartas raspam as folhas e causam a formação de manchas claras; à medida que crescem, as lagartas destroem as folhas totalmente, podendo danificar também hastes terminais (Figura 4).
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 4. Fase jovem (A) e adulta (B) da lagarta-da-soja Anticarsia gemmatalis.

Lagarta-do-cartucho-do-milho (Spodoptera frugiperda) – Apesar de ocorrer com maior frequência no milho e outras gramíneas, consome folhas novas da alfafa; em ataques intensos, pode-se notar até 300 lagartas por metro quadrado (ARAGÓN e IMWINKELRIED, 1995) (Figura 5).
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 5. Fase jovem (A) e adulta (B) da lagarta-do-cartucho-do-milho Spodoptera frugiperda.

Curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes) – Essas lagartas são mais comuns em gramíneas, das quais podem migrar em grande quantidade para a alfafa. Isso pode tornar-se um problema em áreas voltadas para a criação de bovinos e em áreas de outros cultivos próximas a pastagens. A lagarta é reconhecida por se locomover como se estivesse medindo palmos, tal como Rachiplusia nu, outra espécie que também pode atacar a alfafa (Figura 6).
 
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 6. Fase jovem (A) e adulta (B) do curuquerê-dos-capinzais Mocis latipes; fase jovem (C) e
adulta (D) de Rachiplusia nu.

Broca-das-axilas (Epinotia aporema) – Quando pequena, tem aspecto gelatinoso e o hábito de unir as folhas ou flores das extremidades da planta com fio de seda, alimentando-se delas. Nas hastes, abrem galerias, provocando o secamento de ramos e de folhas na extremidade da planta (Figura 7A,B).
Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) – Insetos que seccionam as plantas, principalmente as mais novas, na região do caule próxima ao solo. Têm hábito noturno e, durante o dia, permanecem enroladas e abrigadas no solo (Figura 7C).
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 7. Fase jovem (A) e adulta (B) de Epinotia aporema; adulto de Agrotis ipsilon (C).

Besouros
Os principais besouros que causam danos à alfafa são:
a) Gorgulho-da-alfafa (Naupactus leucoloma ou Pantomorus leucoloma) – O adulto tem cabeça prolongada, cor cinza claro, com listra branca nas laterais das asas; medem de 8 mm a 12 mm de comprimento (Figura 8A). Suas larvas têm corpo branco amarelado, sem pernas, cabeça grande e com coloração castanha.
Durante a fase larval, vivem no solo e se alimentam de raízes (Figura 8B).
b) Brasileirinho ou patriota (Diabrotica speciosa) – Os adultos vivem sobre as plantas e têm coloração verde com pintas amarelas (Figura 8C). Suas larvas vivem no solo, são brancas e finas, sendo conhecidas como larvas-alfinete.
c) Vaquinha (Epicauta atomaria) – O adulto é um besouro de coloração cinza com pontos pretos distribuídos sobre as asas; medem de 10 mm a 15 mm de comprimento (Figura 8D). Sua presença em alfafais é atribuída à proximidade de cultivos de soja, de feijão ou de guandu.
Danos: O brasileirinho adulto alimenta-se de folhas mais tenras, deixando-as com pequenos orifícios; a vaquinha E. atomaria destrói as folhas da planta, deixando-as apenas com as nervuras. Ambas causam diminuição da área fotossintética e queda na produção. Os danos causados pelos adultos são maiores em alfafais em fase de estabelecimento. As larvas do gorgulho e do brasileirinho atacam a região de crescimento das raízes, causando a morte de plantas recém-emergidas. Os danos às raízes de plantas de alfafa, além de diminuírem a produtividade e a longevidade do cultivo, constituem portas de entrada para fungos que contribuem para o aumento dos danos provocados. Sua importância aumenta em áreas de plantio direto, com solos escuros, ricos em matéria orgânica e úmidos.
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 8. Besouros pragas da alfafa: gorgulho-da-alfafa adulto Naupactus leucoloma (A) e seus
danos nas raízes (B), brasileirinho Diabrotica speciosa (C) e vaquinha Epicauta atomaria (D).

Cigarrinha-verde
Tratam-se de insetos pequenos, sugadores, com 3 mm de comprimento e dotados de movimentos rápidos. Os adultos são de coloração verde e as ninfas, menores, de coloração amarelo-esverdeada (Figura 9). As formas jovens têm o hábito de se locomoverem lateralmente e são facilmente encontradas na superfície inferior das folhas. Nos EUA, sua ocorrência está associada a clima quente e seco.

Danos: Tanto os adultos como as ninfas da cigarrinha-verde succionam a seiva da planta, deixando-a amarelada, com crescimento reduzido e folhas com bordos enrolados para baixo ou arqueados; sinais que são muito semelhantes aos de viroses.
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 9. Cigarrinha adulta sugando folha de alfafa e deixando sinais da saliva tóxica nas folhas.

Tripes
São insetos muito pequenos (0,5 mm a 13 mm), com corpo delgado e dois pares de asas franjadas longas e estreitas. Na Argentina, a espécie mais frequentemente encontrada é Caliothrips phaseoli (Figura 10); as espécies de maior ocorrência nos EUA são Caliothrips fasciatus, Thrips tabaci e Frankliniella occidentalis.
Danos: Essas espécies causam prejuízos diretos, por se alimentarem de plantas, ou indiretos, por serem vetores de vírus de plantas. Durante a alimentação, os tripes raspam os tecidos das folhas e sugam a seiva extravasada, causando deformação e crescimento desigual dos tecidos em torno da lesão, os quais ficam com aparência enrrugada.
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 10. Tripes Caliothrips phaseoli: ninfas (A); adultos (B); sintomas verificados nas folhas de alfafa
atacadas pela praga (A-B).

Ácaros
Esses têm sido cada vez mais frequentes nos cultivos de alfafa do Rio Grande do Sul. Algumas espécies, como o ácaro manchado Tetranychus urticae formam colônias na superfície inferior das folhas, onde também deixam seus ovos, colocados em uma teia tecida com fios de seda semelhantes aos de uma aranha. As ninfas e os adultos são muito pequenos (Figura 11).
Danos: Em consequência da alimentação do ácaro, aparecem pequenas áreas esbranquiçadas na parte superior das folhas, que com o passar do tempo se tornam amareladas; danos graves incluem a queda das folhas. Plantas altamente infestadas têm aparência amarelada e podem ficar atrofiadas. A redução na produção é maior quando a alfafa está crescendo ou quando as infestações ocorrem no início do ciclo de corte.
Fotos: Fernando Daniel Fava
Figura 11. Presença de teias com ácaros Tetranychus urticae (A) e sintomas verificados nas plantas de
alfafa atacadas pela praga (B).

Controle das principais pragas

Em razão principalmente do seu uso como forragem na alimentação animal, deve-se evitar o controle químico de pragas na cultura da alfafa, optando-se por outros métodos. Atualmente, não há registro de inseticidas químicos para uso na cultura da alfafa junto ao Ministério da Agricultura. Os métodos recomendados são:

a) Preventivos
– Uso de cultivares resistentes;
– Manejo racional do mato, evitando plantas espontâneas que abrigam as mesmas pragas da alfafa.
b) Culturais
– Uso de curvas de nível em áreas declivosas para evitar a perda da fertilidade do solo e, consequentemente, manter as plantas mais saudáveis e capazes de reagir ao ataque de insetos fitófagos.
– Priorização de adubos nitrogenados de solubilização lenta porque os de rápida disponibilização deixam a planta mais suscetível ao ataque de insetos sugadores.
– Controle do excesso de água que pode causar estresse nas plantas, deixando-as sem defesas para reagir ao ataque de pragas.
– Escalonamento dos cortes de alfafa para manter os inimigos naturais nas áreas de cultivo. Assim, os predadores e parasitoides da área cortada podem se refugiar nas áreas onde a alfafa não foi cortada, controlando as pragas.
c) Físicos
– Antecipação do corte ou do pastejo quando os insetos-praga estiverem iniciando o ataque pode controlar o aumento de determinada praga na área.
d) Biológicos
– Preservação de áreas de refúgio diversificadas para manutenção dos inimigos naturais. Estas áreas podem ser matas ou faixas com diferentes plantas inseridas entre as áreas de plantio.
– Uso de inseticidas biológicos como aqueles à base de bactéria Bacillus thuringiensis para controle de lagartas ou besouros, ou dos fungos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae para vaquinhas e cigarrinhas. O fungo Nomuraea rileyi tem ocorrência natural em campos de cultivo e a presença de lagartas flácidas e com bolor branco na sua superfície pode ser indício de sua presença.
– Manutenção do parasitismo natural: pulgões com aspecto inchado e de coloração muito mais clara que os demais podem estar parasitados por microvespas que os consomem internamente, matando-os.
Por se tratar de uma cultura perene, a alfafa forma um agroecossistema relativamente estável em que inimigos naturais podem se estabelecer. Assim, predadores e parasitoides, juntamente com outros fatores, como temperatura e precipitação, são componentes que apresentam um papel importante na redução das populações de pragas. Insetos que agem como agentes reguladores da população de pragas (inimigos naturais) podem ser facilmente visualizados pelos agricultores, que não devem confundi-los com as pragas. O reconhecimento deles é fundamental para o sucesso do controle biológico natural. Na Tabela 1, são apresentadas as pragas da alfafa e seus predadores e parasitoides mais comuns, e existem publicações que podem auxiliar os agricultores nesse processo (SILVA et al., 2013).
Tabela 1. Pragas da cultura da alfafa e seus predadores e parasitoides mais comuns.
 
PragasInimigos Naturais
PulgõesPredadores: Percevejos jovens e adultos das famílias Geocoridae, Nabidae e Anthocoridae, além das joaninhas (Coccineliidae); larvas de Chrysopidae e Syrphidae.
Parasitoides: Microvespas (Aphidiidae).
 
LagartasPredadores: Percevejos jovens e adultos das famílias Geocoridae, Nabidae e Anthocoridae.
Parasitoides: De ovos (Trichogrammatidae) e de lagartas (vários).
BesourosPredadores: Percevejos jovens e adultos das famílias Geocoridae e Nabidae; e joaninhas (Coccineliidae); larvas de Chrysopidae.
Parasitoides: Microvespas (várias).
Cigarrinha-verdePredadores: Percevejos jovens e adultos das família Nabidae e Anthocoridae; larvas de Chrysopidae.
Parasitoides: Microvespas (várias).










Outro ponto a ser levado em conta no controle de pragas da alfafa é o fato de ela necessitar, obrigatoriamente, de insetos para a sua polinização. É muito importante o conhecimento das relações entre os métodos de controle e os agentes polinizadores, principalmente quando se visa produzir sementes. A abelha comum (Apis mellifera), a mamangava (Xylocopa brasilianorum) e a irapuá (Trigona spinipes) foram relacionadas como as espécies mais comumente associadas à polinização de alfafa no Brasil.

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