sábado, 11 de março de 2017

Manejo de Solos para a Cultura do Algodão

Manejo de solos

O manejo do solo se constitui de práticas simples e indispensáveis ao bom desenvolvimento das culturas, e compreende um conjunto de técnicas que, utilizadas racionalmente, proporcionam alta produtividade, mas, se mal utilizadas, podem levar à destruição dos solos em curto prazo. Principalmente porque o algodoeiro é uma das culturas que mais expõem o solo aos agentes erosivos.
A produção de algodão em monocultivo, sob plantio convencional, em geral, não é uma prática sustentável (Figura 1). Atualmente, as pesquisas têm mostrado que melhor sustentabilidade agrícola ocorre quando se usa um sistema de produção, sob plantio direto ou similar, com rotação efetiva de diversas culturas, capazes de gerar abundante palhada, incorporar nitrogênio no solo, reciclar nutrientes, limitar a dispersão de doenças e pragas, manter o solo sempre coberto e gerar alternativas de renda ao produtor, com ou sem integração com pecuária e/ou silvicultura.
De maneira geral, pode-se considerar os seguintes tipos de manejo do solo:
Preparo convencional - provoca inversão da camada arável do solo, mediante o uso de arado ou grade aradora (Figura 2); a esta operação seguem-se outras, secundárias, com grade niveladora ou destorroadora, para triturar os torrões; 100% da superfície é removida por implementos. Este tipo de preparo só deve ser utilizado quando da correção de algumas características na subsuperfície do solo, onde necessite de incorporação de corretivos ou rompimento de camadas compactadas através de subsolador (Figura 3). Esse sistema tem a desvantagem de pulverizar excessivamente o solo, deixando-o susceptível à erosão.
Foto: José da Cunha Medeiros
Figura 1. Erosão laminar severa na cultura do algodão.
Foto: José da Cunha Medeiros
Figura 2. Preparo do solo com grade aradora em sistema convencional.
Foto: José da Cunha Medeiros
Figura 3.  Subsolador com disco cortante para palha.
Preparo mínimo - intermediário, que consiste no uso de implementos sobre os resíduos da cultura anterior, com o revolvimento mínimo necessário para o cultivo seguinte. Geralmente, é utilizado um arado escarificador em profundidade suficiente para romper crostas ou camadas compactadas. Alguns equipamentos de escarificação fazem o destorroamento (Figura 4), enquanto os que não possuem esse mecanismo necessitam do auxílio de uma gradagem leve para o destorroamento do solo.
Plantio direto – neste sistema, as sementes de algodão são semeadas através de plantadeira especial sobre a palhada de culturas do cultivo anterior (Figura 4) ou de culturas de cobertura com palha produzida no local para este fim, incluindo-se o sistema de Integração Lavoura Pecuária (ILP), onde as sementes de algodão são semeadas diretamente sobre uma pastagem previamente dessecada.
Foto: Alexandre Cunha de Barcellos Ferreira
Figura 4. Algodão em ILP (Semeado sobre pastagem de Brachiaria brizanta dessecada).
Plantio semidireto - semelhante ao Plantio Direto; semeadura direta sobre a superfície, com semeadora especial, diferindo deste sistema apenas por haver poucos resíduos na superfície do solo.
Os manejos referidos nos itens 2, 3 e 4, são conhecidos como conservacionistas, sendo consideradas as melhores práticas de manejo, até o momento, estabelecidas na conservação da água e do solo.
As técnicas de manejo do solo a serem aplicadas em determinada área dependem de vários fatores. Cada área rural tem suas peculiaridades e requer manejo próprio. Para cada caso, definir-se-ão as técnicas, de acordo com: a textura do solo, o grau de infestação de invasoras, os resíduos vegetais que se encontram na superfície, a umidade do solo, a existência de camadas compactadas, pedregosidade e os riscos de erosão, máquinas e implementos disponíveis, preço remunerador para os produtos colhidos das diferentes culturas trabalhadas em rotação e sucessão de culturas, e o mercado abrangente para esses produtos. Para isto, o estudo do perfil do solo torna-se primordial. Contudo, vale a pena lembrar que, sempre que possível, deve-se decidir pelos manejos conservacionistas e, mesmo quando da impossibilidade da aplicação do conjunto de técnicas que os compõem, deve-se eleger os preparos e técnicas que provoquem o menor revolvimento do solo.

Perfil do solo

No Cerrado brasileiro, o uso de máquinas e implementos cada vez mais pesados vem ocasionando a formação de encrostamento superficial e de uma camada adensada na subsuperfície do solo, comumente chamada “camada compactada”, que reduz a taxa de infiltração e aumenta a erosão, incidindo no incremento de perdas de nutrientes do solo, que é a causa mais grave da degradação do meio físico.
O impacto das gotas de chuva diretamente sobre a superfície desnuda desses solos desprende as partículas finas que são arrastadas pela água em sua descida, até a referida camada, onde exercem efeito prejudicial sobre a infiltração de água. Neste processo, é determinante a exposição do solo. A camada compactada se torna desfavorável ao desenvolvimento dos cultivos, pois, além de pouco permeável à água e ao ar, dificulta a penetração das raízes, o que repercute negativamente sobre a produtividade do solo, principalmente quando se trata de uma cultura como o algodão, que exige ambiente edáfico com equilíbrio entre a quantidade de macro e microporos, ou seja, favorável tanto à retenção de umidade quanto à aeração.
A existência de camada compactada é facilmente identificada através do exame do sistema radicular das plantas em pleno desenvolvimento vegetativo, observando-se a morfologia das raízes (Figura 5). Sintomas como desvio lateral da raiz principal, tortuosidade anormal, deformações da forma cilíndrica, acúmulo de raízes secundárias próximo à superfície, são características que indicam a existência de compactação ou toxidez, havendo necessidade de correção.
Foto: José da Cunha Medeiros
Figura 5. Perfil de solos destacando sistema radicular em situação normal.
A descompactação deve ser efetuada com um implemento, geralmente de hastes rígidas, capaz de romper a dita camada de forma que a ponta da haste opere a, pelo menos, 5 cm abaixo do limite inferior da compactação. Para romper adensamentos superficiais, geralmente, arados escarificadores, promovem bom trabalho, enquanto camadas mais profundas e espessas necessitam de subsoladores de alta resistência. Áreas de solos com textura média ou arenosa com mais de quatro anos de pousio dificilmente necessitam de descompactação, pois as raízes das plantas ali existentes já se encarregaram de realizá-la biologicamente.

Manejo Conservacionista

Nos melhores solos do Cerrado, que em geral são profundos, bem estruturados, de textura média, com uma boa drenagem ao longo do perfil, pode-se manter um alto nível de produtividade mediante a aplicação de práticas de conservação de solos. Então, um verdadeiro sistema de agricultura sustentável é aquele em que os efeitos benéficos das diferentes práticas de conservação são iguais ou ultrapassam os efeitos adversos dos processos de degradação. O componente vital deste equilíbrio dinâmico é a matéria orgânica, a qual tem que ser mantida através de adições regulares de materiais orgânicos.
Uma das características do solo que mais sofre influência do manejo é a estrutura que pode ser considerada o componente básico de sua fertilidade física, ao condicionar o desenvolvimento da porosidade intra e inter agregados, como a principal via de circulação da água e do ar no solo. A estrutura que envolve uma série de inter-relações muito sutis, estabelecidas entre os componentes minerais e orgânicos do solo, e que resulta de uma série de processos físicos, químicos e biológicos, pode facilmente se deteriorar pela ação das forças de compressão derivadas do uso incorreto de máquinas e implementos agrícolas. Os restos vegetais deixados na superfície do solo nos sistemas de manejo conservacionistas  repercutem muito no aumento e na conservação da estabilidade de agregados na superfície e na redução da compactação das camadas subsuperficiais.
Todos estes fatores incidem também sobre a capacidade de infiltração de água no solo, que é resultante do balanço entre a quantidade de água que chega e a que sai. Neste balanço, influi a taxa de infiltração, o escorrimento superficial, a ascensão capilar, a drenagem e a evaporação. Do volume de água que cai na superfície, parte se infiltra no solo e atinge o lençol freático, garantindo a perenização dos cursos d`água, enquanto a parte infiltrada é retida pelo solo, constituindo-se em água disponível para as plantas, o que é de grande importância, pois o processo de nutrição de plantas depende da água disponível para a formação da solução do solo e as plantas poderem absorver os nutrientes necessários ao seu pleno desenvolvimento.
Parte da água retida no solo é perdida por evaporação e/ou evapotranspiração e, em função da capacidade de infiltração e retenção de água do solo e da intensidade das chuvas, parte pode exceder e ser perdida por escoamento superficial. Dependendo do volume e da velocidade deste escoamento, pode ocorrer o arraste de partículas de solo e dos insumos nele aplicados, sedimentando-se em baixadas, lagos e rios, o que afeta gradativamente a capacidade produtiva do solo, reduzindo, entre outros fatores, a sua fertilidade, a capacidade de infiltração e a retenção de água. Além disso, eleva a acidez e provoca irregularidade superficial, o que vem dificultar seu uso agrícola, exigindo mais energia e insumos para a manutenção de sua produtividade.
Em todos esses fatores citados, a matéria orgânica tem participação direta ou indireta, estando presente na atividade agrícola desde a sua origem e até a sua utilização, afetando diretamente a fertilidade e a produtividade dos solos cultivados. Em muitos solos, a matéria orgânica humificada do horizonte superficial é o principal fator responsável pela "capacidade de troca de cátions" (CTC), verdadeira dispensa dos nutrientes, que podem ser liberados progressivamente à disposição dos cultivos; logo, pode-se deduzir que é um componente do solo que tem papel fundamental nas perdas de nutrientes por lixiviação.
À parte desta relação direta, há outras, indiretas: o húmus, como visto anteriormente, é um dos principais condicionantes do desenvolvimento da estrutura do solo e de sua estabilidade; a degradação da estrutura incide sobre a distribuição do tamanho dos poros e da erodibilidade e perdas de solo da zona, que costuma ser a mais rica em húmus e nutrientes; por outro lado, os resíduos dos cultivos deixados na superfície pelos sistemas de preparo conservacionistas protegem a ação direta do impacto das gotas de chuva (responsáveis pelo selamento de poros e pela formação de crostas superficiais), incidem sobre o regime de temperatura e umidade do solo e, também, reduzem o escoamento superficial.
Assim, pode-se dizer que a proteção da superfície do solo nos sistemas de manejo evita perdas de umidade por evaporação, o que, unido ao desenvolvimento de uma quantidade maior de macroporos aptos para a transmissão de água e de microporos para sua retenção, proporcionam incremento significativo na capacidade de armazenamento de água e nutrientes e melhor disponibilidade destes para os cultivos.
A utilização de espécies de cobertura e do plantio direto permitem a reciclagem de nutrientes e melhoram as condições físicas do solo devido à rede de raízes subterrâneas (Figura 6), o que reduz o uso de fertilizantes devido à reciclagem de nutrientes (Tabela 1) e potencializa a produtividade da cultura do algodão; o solo se mantém sempre coberto e protegido da erosão, economizando água e suprimindo a competição com ervas daninhas. Como consequência, são obtidas plantas saudáveis e produtivas. Essas são, pois, as condições de cultivo que devem ser alcançadas por um manejo de solo adequado para o cultivo do algodoeiro no Cerrado do Brasil.
O manejo conservacionista do solo deve ser pensado de modo que se alcance sistemas de produção que gerem o máximo de palhada para cobertura permanente do solo, recicle o máximo de nutrientes para a cultura do ciclo seguinte, não multiplique nematoide, nem seja fonte de inóculo de doenças para os demais cultivos usados, tenha facilidade de manejo com a estrutura de equipamento existente na propriedade e faça com que as culturas em rotação/sucessão explorem economicamente todo o período de chuva existente na região. Sugestões de sistemas de produção sustentáveis e efetivos têm sido o foco de diversos trabalhos da Embrapa.
Foto: Maria da Conceição Santana Carvalho
Figura 6. Desenvolvimento das raízes de Brachiaria ruziziensis no SPD, até 60 cm de profundidade, antes da dessecação e semeadura do algodoeiro.

Tabela 1. Quantidade de macronutrientes liberados com a decomposição da palha de diferentes culturas de entressafra, durante o ciclo da cultura do algodoeiro.
Espécie
Total liberado (kg/ha)
Nitrogênio
Fósforo
Potássio
Cálcio
Magnésio
Brachiaria decumbens
53
11
141
5
10
Brachiaria brizantha cv Marandu
83
15
167
18
27
Panicum maximum cv Massai
53
8
137
38
12
P. maximum cv Massai + Crotalaria spectabilis
60
10
199
38
20
Milheto ADR 500
65
8
64
24
9
Brachiaria brizantha cv Piatã
48
10
100
17
9
Brachiaria ruziziensis + C. spectabilis
83
13
78
41
19
Brachiaria ruziziensis
54
14
130
44
20
Brachiaria brizantha cv Xaraés
29
8
189
25
10
Fonte: Salton e Lamas (2011).



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